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A acção inteligente e consequente no caminho da autonomia

Quarta-feira, 19.10.11

 

Todos procuramos fórmulas que funcionem, nas nossas vidas e à nossa volta. Uns, em busca do sucesso e da aprovação social, outros, para simplesmente sobreviver num mundo competitivo, outros ainda, os mais ambiciosos a meu ver, para realizar os seus sonhos e serem felizes.

Provavelmente, a maioria experimenta as várias fases deste caminho, há o tempo da simples sobrevivência, há o tempo do relativo sucesso profissional, há o tempo da materialização de um sonho antigo. 

Mas o verdadeiro sabor da autonomia, decidirmos pelas nossas vidas, sentirmo-nos perfeitamente alertas e despertos, conscientes do chão que pisamos, da sua consistência, dos seus obstáculos e perigos ou das suas oportunidades, esse sabor ainda não o experimentámos, a não ser em curtos períodos.

 

O caminho da autonomia não nos é apresentado na infância nem na adolescência, precisamente as épocas mais interessantes e promissoras do nosso desenvolvimento, em termos de inteligência e curiosidade. Nessas épocas promove-se precisamente a obediência e o conformismo, enquadrar numa forma de ver a realidade e de viver em comunidade. Com um pouco de sorte encontramos adultos que nos desafiam a pensar pela nossa própria cabeça, a descobrir as coisas, a não nos contentarmos com o que nos apresentam como real. E com mais sorte ainda, cruzamo-nos nas nossas vidinhas domesticadas com adultos divertidos, bem-humorados, gratos pela sua vida, por mais simples que nos pareça. Geralmente são pessoas de idade avançada e tempo para aturar uma criança ou um adolescente.

 

Confundir a actual liberdade de movimentos de uma criança ou de um adolescente com autonomia é um erro. O que se passa hoje é bem diferente: estão entregues a si próprios. Falta ali um elo humano de ligação à realidade, mesmo que inadequado ou baseado na tradição, mas ainda assim melhor do que a actual ausência e tantas vezes negligência. As pessoas que antes exerciam um qualquer papel formativo ou de formatação, são agora substituídas por pequenos acessórios: telemóveis, blackberries, ipods, consolas, etc. De criaturas formatadas por adultos passamos a criaturas dependentes virtuais. Antes os adolescentes treinavam a autonomia a pouco e pouco até sair de casa. Hoje saem, divertem-se e voltam para comer e dormir. 

 

Não preparámos uma geração de autónomos mas de autómatos. O que vemos hoje são pessoas paralisadas pelo medo do futuro, incapazes de agir de forma adequada a cada situação que se apresenta. A própria sociedade organizou-se a promover o conformismo geral: nós decidimos por si. Foi o que se viu. Os resultados estão à vista. Geriram mal o país, de forma negligente e danosa. E as pessoas deixaram-se conduzir e embalar, até porque iam recebendo ao longo da jornada aquelas promoções de marketing de massas, goze agora pague depois. 

Agora, acabada a festa, fica a ressaca, uma enorme dor de cabeça e um olhar atónito e incrédulo, de quem não previu nada disto. Agora a conversa oficial é outra evidentemente, até porque as elites pertencem à prata da casa, de uma sociedade que nunca se organizou para a responsabilidade: é tempo de sacrifícios. Sacrifícios, sacrifícios... esta palavra é martelada nas televisões, para que as pessoas se habituem a ela. Mas sacrifícios de quem? Até na escolha da palavra há um cinismo (ou uma imaturidade?) implícito: claro que os sacrifícios não são para todos os mortais.

A palavra sacrificios faz parte de uma narrativa muito bem montada, numa espécie de guião de filme de série inclassificável: 

 

(Vou fazer aqui um breve intervalo e já volto a tentar desenvolver a ideia que me surgiu esta manhã...)

 

Ainda alinhavei aqui uma linha de raciocínio, mas os resultados não me agradaram muito. Digamos que passar a vida a desmontar narrativas oficiais e estratégias de marketing político já não é muito motivador. Vamos então por outra linha: analisar, por exemplo, a escolha de uma das palavras-chave escolhidas por este governo, sacrifícios, e outra, medidas, e ainda outra, buraco ou desvio orçamental, e depois passar para a ideia que me interessa, da acção inteligente e consequente no caminho da autonomia. O que implica analisar o papel das lideranças que nos gerem e o que poderia ser.

 

As palavras-chave escolhidas pelo marketing político do actual governo revelam uma narrativa que se baseia numa espécie de correcção de desvios (ou desvarios) do governo anterior: 

- sacrifícios: palavra forte, com carga ética e religiosa, como um dever, uma obrigação, uma inevitabilidade. A sua escolha não foi inocente, mas ao ter banalizado a sua utilização, e ao não ter assegurado a sua universalidade (todos deveriam contribuir), perdeu credibilidade. Além disso, só se mobilizam cidadãos para contribuir na expectativa de obter resultados, num determinado período de tempo, de modo a libertar a economia dos actuais constrangimentos. 

- medidas: apresentadas a conta-gotas, de forma avulsa, sem coerência nem perspectivas práticas, nem uma avaliação séria das consequências. Com a agravante de não se aplicarem a todos de uma forma sensata e equilibrada. O facto da sua apresentação depender sempre da descoberta de mais um buraco ou desvio orçamental também levou à confusão geral e ao desânimo.

- buraco ou desvio orçamental:  já todos sabiam o que os esperava antes de acederem à gestão política, um país endividado e condicionado pelos credores. 

 

Como lidar com a situação crítica do país? Mobilizando os cidadãos. Este é o único caminho viável para um desafio desta dimensão. 

Como mobilizar os cidadãos? Com a aplicação de cortes na despesa estatal e de algumas receitas selectivas (as tais medidas) coerentes, consequentes, equilibradas, viáveis, baseadas numa comunicação exacta dos passos a dar e dos resultados que se podem esperar. Isto implica a universalidade das contribuições (os tais sacrifícios), e de forma proporcionada e equilibrada. Repito: a informação sobre a aplicação de cortes na despesa e da justificação das receitas (impostos) deve ser exacta, correcta, simples, para todos perceberem a sua necessidade.

 

Neste momento, vemos duas camadas sociais a distanciar-se cada vez mais: os decisores e as vítimas das suas decisões. Qualquer semelhança entre esta organização social baseada na cultura corporativa e os princípios básicos de uma democracia saudável, é pura coincidência. E isto também se passa a nível da UE.

 

A acção inteligente e consequente no caminho da autonomia é a fórmula mais adequada para a nossa situação actual. Aliás, aplica-se a todas as dimensões da nossa vida: familiar, social, profissional, cidadania. Baseia-se num princípio muito simples: o respeito por si próprio e pelos outros. Esta é a essência, a meu ver, de uma democracia saudável. Viver e deixar viver. Perspectivar a economia de uma forma abrangente, em que todos colaboram, activos e inactivos. Perspectivar a participação social e cívica de todos na restruturação das áreas-chave para reforçar a autonomia do país. Perspectivar as redes de apoio social, a nível local, aos mais vulneráveis, crianças e reformados.

 

Um desafio desta dimensão exige lideranças com uma cultura de séc. XXI e com alguma autonomia relativamente aos grupos de influência. Sem lideranças à altura deste desafio não vamos a lado nenhum. 

 

Como nos podemos nós distanciar emocionalmente deste pedalar em seco a escorregar para trás em plano inclinado? Impossível. Mesmo que não liguemos a televisão em hora de notícias, há sempre alguém que nos conta as últimas, com olhar atónito e voz aflita, porque não vê fim à vista. São uns a tapar os buracos e outros a abri-los noutro sítio. Esta situação não se pode manter muito mais tempo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:49

"Desenvolvimento local, caridade global" (XXVII Encontro da Pastoral Social)

Quarta-feira, 14.09.11

 

É com este tema "Desenvolvimento local, caridade global", que abriu ontem, em Fátima, o XXVII Encontro da Pastoral Social. É a fórmula adequada para o desafio actual: sociedade e economia, respeitando a vida e a dignidade. 

Refiro-me a esta fórmula porque é inovadora, traduz a realidade do séc. XXI, a ideia fundamental de uma economia global em que tudo está em comunicação e inter-relação, o micro e o macro.

Nesta perspectiva de um mundo globalizado, a Igreja tem consciência da escolha que está implícita: a continuação de um caminho destrutivo que promove fracturas e desequilíbrios entre fortes e fracos, entre ricos e pobres, e um caminho que respeita a vida e a dignidade de cada um, e de todos, e que implica ousadia, coragem, criatividade, inovação.

O primeiro caminho é o que vemos actualmente na gestão política, no limite é um caminho suicidário, pois não se pode subsistir sobre ruínas e lixo. Mas ainda é esse o caminho dominante, obedecendo a uma lógica que se baseia na ideia de escassez, em que a riqueza que se produz simplesmente não dá para todos. Esta é uma visão redutora da economia.

O desafio que conta é outro: o que mantém a escassez, o que impede a economia de respirar, de mexer, de se movimentar? A começar, esta perspectiva redutora de economia em que só alguns podem ter acesso à sua fonte porque se pode esgotar.

A economia, vista como fonte de vida, um movimento constante, que corre livremente e livremente se movimenta, em trocas de bens e serviços, nunca teve tanta possibilidade de se concretizar. É essa a perspectiva da fórmula: "desenvolvimento local, caridade global". Estão inter-ligados, indissociáveis. É a lógica da vida, da criatividade e da inovação, da dignidade e da autonomia. É uma lógica que contraria a perspectiva de economia redutora, que se baseia na escassez e, no limite, na destruição e na morte (fome, conflitos, guerras).

Sim, é verdade, ando a ler Alvin e Heidi Toffler, "A Revolução da Riqueza - como será criada e como alterará as nossas vidas". Mas não se trata de uma leitura sem filtros. É a perspectiva de economia que me parece aproximar-se mais da nossa realidade actual. Aliás, Alvin Toffler previu muitas das alterações recentes tecnológicas, culturais e sociológicas, que afectaram profundamente a economia. E que a alteraram irreversivelmente, de natureza e dimensão. Uma economia que se baseia cada vez mais em informação e conhecimento, em inovação e criatividade, e que implica rapidez, flexibilidade, fluidez, comunicação, inter-relação.



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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:29

Empatia e compaixão, a base da autonomia

Domingo, 14.08.11

 

Arno Gruen, psicanalista que tem estudado os fenómenos de violência na sociedade actual, cita n’ A Traição do Eu Ortega e Gasset, que só acreditava em náufragos, para melhor nos esclarecer que só o indivíduo capaz de sentir a dor, a sua e a do outro, e sentir o desamparo, é capaz de empatia e compaixão, viver afectos genuínos, respeitar-se a si e aos outros.

Agora analisemos a questão nesta perspectiva: estão a ver um indivíduo com estas características adaptar-se bem a normas e a práticas organizacionais que se regem pela lógica do poder, alheias às pessoas, à sua vida, às suas necessidades, e quantas vezes, contra as suas vidas e necessidades vitais? Quantos episódios dramáticos já não ouvimos sobre indivíduos que, no limite, preferiram morrer a colaborar na destruição de outras vidas? São esses os náufragos de Ortega e Gasset: porque passaram pela dor do desamparo, sentem a dor de outros como se fosse sua (empatia), encaram a violência na perspectiva da vítima e a vítima é uma vida, tem uma história e um nome, é carne e ossos, sentimentos, emoções. Se lhes é pedido ou exigido que esqueçam esse pormenor – e a maioria das organizações rege-se por questões que desprezam esta realidade humana -, hesita, questiona-se, reflecte, mas não obedece de forma acrítica, fria, mecânica. A vida, o respeito pela vida, está acima de qualquer outro objectivo na sua escala de valores.

As organizações têm formas de o convencer, e é sempre na base do suposto bem comum, de horizontes mais vastos ou, quando essa argumentação falha, na base da ameaça velada, mas o nosso náufrago não se deixa convencer facilmente: a sua bússula interior resiste à manipulação exterior, por mais elaborados que sejam os argumentos. E se não estiver em condições de não obedecer, adoece: dores de cabeça, úlceras, fobias, ataques de pânico, neuroses, estados depressivos.

Precisamente: muitos daqueles que encaramos como doentes são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade. E muitos daqueles que consideramos saudáveis, porque se adaptam sem questionar às normas e práticas das organizações, são incapazes de sentir a dor do desamparo, incapazes de sentir empatia e compaixão. A sua estrutura, digamos assim, formou-se a evitar essa dor muito precoce, identificando-se, para se defender da vulnerablidade do desamparo, com o vencedor. Como se a vida passasse a ser uma questão de ganhar ou perder, vencer ou falhar. Como se as pessoas não fossem por natureza frágeis e vulneráveis, contraditórias e paradoxais, mas apenas vencedores ou falhados, os “nossos” e “os outros”. É evidente que aqueles que se regem por esta lógica do poder irão sentir-se atraídos pelo poder e vemo-los em organizações, em lugares de gestão ou a gravitar à sua volta.   

Pensem então por momentos nas implicações desta realidade: quem encontramos em lugares de poder, de exercer o poder, de decidir pelas nossas vidas, são muitos daqueles que se regem por normas e práticas alheias às nossas vidas, e, no limite, contra as nossas vidas. Dito assim, é assustador, não é? Agora tentemos transpor tudo isto para o que se está a passar no ocidente, sobretudo EUA e Europa. O que é que estes gestores do poder político e económico andaram a fazer? E o que é que insistem em continuar a fazer? A jogar com as nossas vidas, as vidas de pessoas reais, carne e ossos, sentimentos e emoções. Percursos e expectativas reais. Se as respeitassem diziam-lhes a verdade. Se as respeitassem reconheciam os erros e mudavam de rumo. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:01

O valor do trabalho

Quinta-feira, 09.06.11

 

Sempre tive alguma dficuldade em perceber este quase desprezo nacional pelo trabalho, a desvalorização de quem cumpre compromissos e horários, colocando num pedestal quem se promove de forma meteórica, quem procura o estatuto e as luzes da ribalta. Até muito recentemente, a palavra-chave era "emprego" e não "trabalho".

"Emprego" é precisamente o estatuto, os direitos, as garantias. "Trabalho" é acção, resultado, competência.

Não admira que esta cultura do "emprego", que não sei de onde surgiu mas que se instalou sobretudo após a "revolution", seja a mesma que considera natural fazer greve numa empresa pública falida, num país falido, onde mais de 14% dos seus conterrâneos estão fora desse privilégio: trabalhar para adquirir a sua autonomia, para se sentir socialmente activos e úteis. Outro estranho sintoma é a insistência em valorizar feriados e fins-de-semana e pontes e férias, e achar natural o mau-humor das segundas-feiras, como adolescentes mimados. E isto num país que deve mais do que produz.

Só o trabalho dá autonomia verdadeira. Por isso, o seu valor vai muito além do que lhe é atribuído. A liberdade adquire-se quando se pode rejeitar as situações indignas de servilismo e contestar as injustiças sociais. Resumindo, ser um cidadão livre, exercer a sua cidadania.

A liberdade também é um valor que tem sido desvalorizado em detrimento da dependência e do conformismo. Isto está a mudar, o que só nos deveria alegrar. Um país de cidadãos autónomos é muito mais saudável e resistente às situações adversas. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:07

A aprendizagem do amor

Domingo, 22.05.11

 

Continuo esta reflexão sobre sentimentos essenciais como o amor e a gratidão, pegando agora no modelo de amor que os pais transmitem. Estejam atentos: que modelo de amor estão a passar aos filhos? Se cada um se respeitar e respeitar o outro, pode fazer mais pela aprendizagem do amor dos seus filhos do que qualquer mensagem verbal.


O amor é discreto, vive de pequenas atenções. A comunicação que o amor permite é criativa e desafiadora. A dimensão do amor abre-lhes a possibilidade da autonomia, de um caminho percorrido por si, que cada um vai desenhando no mundo. É a dimensão do adulto responsável. E as escolhas responsáveis implicam resistir a estímulos externos, não como privação ou moralismo, mas simplesmente por não fazerem sentido.


Uma vez vivida a experiência do amor, a dimensão do respeito por nós próprios e pelos outros, todas estas preocupações actuais com o prazer e o sexo nos surgem como estranhas. O prazer e a alegria que o amor permite não se esgota na magia do momento, perdura para sempre, continua a fazer efeito pela vida fora.

 

O amor é de uma consistência estranha: é leve, aéreo, suave, não se impõe nem é invasivo. E ao mesmo tempo tem uma enorme densidade: é líquido, como os afectos, as emoções. É mutável, adapta-se, fala ou cala, avança ou espera. E é constante, leal.

 

O amor envolve-nos, mobiliza-nos. Trabalhamo-nos e inspiramos o outro a trabalhar-se: para sermos nós próprios, livres e autênticos, nas possibilidades de podermos agir no mundo.

 

Sugestão para este verão: a leitura d' O Pequeno Livro do Amor, de Jacob Needleman, da Bizâncio.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:24

Uma escola de mulheres num mundo de homens?

Quarta-feira, 13.10.10

 

Este sim, seria o maior paradoxo. E a que propósito vem esta questão?

O Nuno, do Cachimbo de Magritte, o mesmo do sorriso do lobo, lançou o debate e nem sei se com destinatário... mas saltando esse pormenor provocador, a tese é interessante, no mínimo:

Num mundo ocidental em franca decadência (isto é absolutamente verdade, uma civilização caracteriza-se pelo pensamento e reflexão, cada vez mais ausentes deste mundo), as mulheres começam a ser bem sucedidas, muito melhor até que os homens em áreas académicas e científicas (a escola actual parece adaptar-se às raparigas e não aos rapazes, que revelam níveis de insucesso preocupantes).

A questão que o Nuno (o mesmo do sorriso do lobo, não esquecer) aqui coloca é em tom provocador:

Não acham que se verifica aqui "mundo ocidental em decadência - sucesso das mulheres", uma coincidência trágica?

 

O debate está aberto e até parece que se acendeu mais do lado dos comentadores homens. As mulheres parecem ter passado ao lado da discussão, afinal, se são bem sucedidas nesta escola para quê preocupar-se? (Glup!, já estou a ser mázinha).

É claro que esta escola não interessa. Esta universidade não interessa. Porque apenas reproduz em série o que antes se produzia em qualidade: o pensamento e a reflexão, a criatividade e a autonomia, a procura de novas soluções, novos caminhos.

O que a torna então mais atractiva e adaptada às raparigas, e afasta os rapazes? Coloquei a hipótese da maior facilidade das raparigas na comunicação verbal, pode ser uma das razões. Uma escola muito teórica, mas de onde o pensamento e a reflexão se tornaram quase ausentes, muito baseada na reprodução, coloca à partida os rapazes à margem, a meu ver. Eles precisam de ver a utilidade das coisas, das tarefas. Para que é que serve?, é a primeira pergunta no olhar de qualquer rapazinho. Qual é o interesse disto? Além disso, são muito visuais (e em tudo, já repararam?, mesmo na interacção social), precisam de ver os objectos e desinteressam-se dos signos, dos códigos descontextualizados.

As mulheres dominam claramente na linguagem e na abstração. Isso não as desmotiva. E, a meu ver, conseguem manter-se nessa tarefa de reproduzir mensagens durante mais tempo. Os rapazes desconcentram-se de tarefas desligadas de uma utilidade prática.

Outra enorme diferença: a actividade desportiva. Embora seja importante para rapazes e raparigas, para eles é fundamental. Murcham fechados numa sala o dia inteiro, esta escola que não contempla a sua necessidade de se expandir, medir forças, exercitar os seus limites, não lhes interessa.

E de facto não interessa. Não está adaptada ao desenvolvimento integral de uma pessoa, homem ou mulher.

 

Mas não tenhamos dúvidas. O mundo ainda é dos homens, as mulheres apenas seguem as suas pegadas, sobretudo na sua colagem acrítica à linguagem do poder. Descobriram o seu encanto, embevecidas com a sua auto-importância pueril. Ter a fama temporária, os prémios temporários, as luzes da ribalta, já dá para adormecer a consciência, não dá?

Um mundo dos homens, mas de que natureza? Um mundo cada vez mais frio, metálico, cínico, boçal, e misógino. Logo aqui, ficam de parte os homens e as mulheres comuns, os que ainda se movem pelos afectos, a empatia, a consciência de pertencer a um universo mais vasto, de outros homens e mulheres como eles, capazes de empatia.

E aos homens e mulheres no poder, interessa-lhes que as pessoas comuns sintam, pensem é reflictam? É claro que não. A escola, a universidade serve para isso, para formatar as pessoas comuns. Aos melhores na escola e na universidade, dá-se-lhes um rebuçado, um lugar, um prémio, e estão dentro do esquema, do seu círculo. Os que pensam pela sua própria cabeça são perigosos, criam-se-lhes obstáculos, fecham-se portas. É assim.

 

Como sair desta lógica decadente, desta organização concebida e formatada para uma elite poderosa que quer manter o seu estilo de vida e que, para isso, lhe convém manter milhares na mediocridade de vidinhas sensaboronas, em trabalhos repetitivos, em subúrbios cinzentos, a pagar impostos?

Só pelo pensamento e pela reflexão, pela empatia e a linguagem dos afectos, pela consciência de pertencer a uma comunidade mais vasta. Só pela capacidade de se distanciar das vozinhas enganadoras e sedutoras: compre isto e aquilo... veja este e aquele programa... esta e aquela telenovela... vote neste e naquele... e terá uma vida de sucesso...

 

As mulheres são co-responsáveis pela perpetuação desta lógica decadente da linguagem do poder, segundo Arno Gruen, que não me canso de citar: afinal, não são elas as mães? É por essa primeira relação afectiva, privilegiada, única, que tudo começa, não é?

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 06:37

O sexo está para o poder como o amor está para a autonomia

Terça-feira, 29.06.10

 

A regra das equivalências também podia ser: O sexo está para o sentimento de posse assim como o amor está para a liberdade. Ou ainda, o sexo e o ódio andam de mãos dadas, o amor só dá as mãos à tristeza e ao desamparo; o sexo está sempre insatisfeito, o amor pré-existe e preenche tudo, a ausência e a perda.

Mas, claro!, falar de amor é piroso e antiquado. E certamente não serão os psicólogos e sociólogos modernaços, nem os que promoveram o sexo a tema científico, os sexólogos, a falar de amor. Na verdade, desconfio que de amor não percebem nada. Mas percebem de poder, da linguagem do poder, da sedução e manipulação, dos jogos e jogadas pouco limpas, não são eles os defensores de na guerra e no amor vale tudo?, de que amor estão aqui a falar quando equiparam amor a guerra?, não é de ódio que se fala aqui?, de poder?, de ganhar e perder?, de troféus?

 

Pois é, na ausência de amor falam muito de sexo.

Mas não se ficam por aqui. A perspectiva deles é a correcta. E querem impo-la aos restantes, às crianças. E o que lhes querem impingir é da maior pobreza de espírito que alguém poderia imaginar: vejam isto! Dá para acreditar?

Fazem bem os pais em reagir a tempo.

 

Uma criança tem uma capacidade quase infinita de observar o mundo e os outros. E uma curiosidade insaciável. Faz perguntas, algumas verdadeiramente incómodas para os pais. Que lá lhes vão respondendo como acham que será mais correcto e adaptado à idade dos filhos. São eles que melhor os conhecem, cada criança tem as suas particularidades: umas mais palradoras e expansivas, outras mais tímidas e reservadas, umas mais sociáveis, outras mais recolhidas no seu cantinho.

É nestas fases das perguntas sobre o corpo, como nascem os bébés, que os pais, se assim o entenderem, podem recorrer a apoio de amigos ou de psicólogos (evitar os modernaços) sobre a melhor forma de responder à sua criança, àquela criança em particular e à sua curiosidade.

A criança começará a visualizar uma parte da vida de forma natural, associada aos afectos, às emoções, aos sentimentos, à semelhança dos pais e dos adultos que passam lá por casa. No início esse mundo dos adultos, do quando eu for grande, é vivido de forma muito fantasiada e criativa, mas essa é a perspectiva da criança, que tem o direito de criar e construir o seu mundo e não ser confrontada com a pobreza mecanicista dos adultos, a aridez da ausência do amor dos adultos.

 

No fundo, é isto o que estes pedagogos modernaços socialistas, apoiados pelos psicólogos e sociólogos modernaços como eles, querem impor à criança: o seu modelo de vida mecanicista e artificial em que o sexo ocupa o lugar do amor, o poder ocupa o lugar da autonomia, o ódio o lugar do desamparo.

Aqui o sexo é mostrado à criança na sua crueza e artificialidade mecânica, destruindo de uma penada a riqueza da fantasia infantil. Bonito serviço! Nem precisamos de nos apoiar numa visão filosófica cristã, nem nos valores católicos, basta-nos a sensatez de psicólogos, pediatras, psicanalistas e sociólogos saudáveis. E quem são? Os que vos falam de amor sem qualquer vergonha. Os que vos falam de afectos, de emoções e sentimentos. Os que vos falam em promover a autonomia aliada à responsabilidade. Que sabem que a criança tem direito a crescer de modo saudável e equilibrado, a descobrir o mundo pelos seus olhos e inteligência, sem se ver condicionada à pobreza de espírito deformadora.

 

Já viram bem quem são os Conselheiros do Sexo? Os que são promovidos nas televisões, revistas e jornais? Parecem-vos criaturas equilibradas e felizes?, sensatas e autónomas? Não vos soam, pelo contrário, perfeitamente pueris e artificiais? Servem essas criaturas de modelos de adultos para as vossas crianças e adolescentes? Se vos faltassem mais argumentos, este vos bastaria para encarar de frente, sem se sentirem intimidados, a Obsessão Sexual que querem impingir às vossas crianças na escola pública. Este vos bastaria para a defesa intransigente das vossas crianças desta pedagogia doentia.

 

Nesta sobrevalorização do sexo há lugar para os acessórios, os gadgets, as sex shops, os truques para aumentar o desejo (!), para uma vida sexual satisfatória e gratificante (!!), muitas vezes receitas da transgressão que mais não são do que receitas da manipulação (!!!), mas não para o verdadeiro motor da vida, o amor, nem para a lógica do amor, a vida. Andam juntos.

Seguem, no fundo, uma pedagogia milenar e nem se apercebem: os gregos estão aqui, a sua decadência e pobreza na expressão e experiência dos afectos mas especialistas na manipulação mais boçal. Também os franceses estão aqui, os da escolinha das mulheres, que pretendem libertar (?) da dominação masculina (??), só para as escravizar ao prazer fortuito e vazio.

E até me admira - e aqui vai a polémica possível - que as mulheres adiram a esta pedagogia modernaça misógina socialista, que abomina a maternidade, chama-lhe reprodução, abomina tudo o que nos lembra a origem da vida. Só mulheres que esqueceram a sua maior dádiva, a possibilidade de gerar vida, de a trazer consigo, de a ver no mundo, é que podem aderir a esta pedagogia modernaça. Só mulheres sem auto-estima se podem deixar assim converter (e ajudar a perpetuar) à linguagem do poder.

 

 

 

E aqui está a Petição Contra a obrigatoriedade da Educação Sexual no Ensino Público.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:29

As Petições como última arma da cidadania?

Sexta-feira, 30.04.10

 

Um dos políticos que mais recorreu às Petições deve ter sido Wilberforce na causa da abolição da escravatura. Gostei muito deste filme magnífico, Amazing Grace. Wilberforce é, aliás, uma personagem fascinante, inspiradora. Não apenas pelas causas que defendeu, mas também pela sua natureza, o seu amor pela botânica, a sua motivação pelo colectivo, a sua aversão a revoluções, a guerras e à violência em geral. Hesitou antes de se dedicar à política, teria preferido a meditação da vida eclesiástica. Alguém lhe disse que podia conciliar Deus e a política, a possibilidade de agir sobre a realidade. A saúde ressentiu-se, pois qual é o homem que não sente a dor universal? No seu caso, foi o estômago: era difícil digerir uma realidade tão amarga como o sofrimento e a morte de tantos escravos, para manter um negócio muitíssimo rentável para o país.

 

Hoje, no início do séc. XXI, parece que as Petições se estão a tornar na última arma da cidadania. A velha Europa já parece avessa a referendos, tem medo deles não vá o Diabo tecê-las.

E neste cantinho que já foi mais ajardinado?

Se queremos defender a liberdade de expressão, Petição. Se queremos proteger o património cultural e histórico, Petição. Se queremos evitar a descaracterização do território colectivo, Petição. Se queremos travar a apropriação do espaço público, Petição.

Já não chega votar num partido e partir do princípio que a democracia funcione, que o equilíbrio social funcione, que a coesão social seja protegida, que a nossa soberania seja defendida, que o nosso futuro não seja comprometido, que não nos preparem uma nova escravatura, etc. e tal. Nada disto é prioridade dos políticos actualmente no poder, nem mesmo do Presidente.

Restam-nos as Petições.

 

É certo que, já no tempo de Wilberforce, as Petições não se revelaram suficientes. Para conseguir a abolição da escravatura andaram mais de uma década a recolher informação e assinaturas. Finalmente, tiveram de recorrer ao seu engenho e arte. Tiveram de ser criativos e aproveitar uma falha no sistema, descoberta por um advogado (who else?) para conseguir passar a lei. Julgo que também nós teremos de ser cada vez mais engenhosos e criativos para nos defendermos do Estado e da sua máquina infernal. E é se queremos realmente manter a liberdade de escolher um futuro possível. É que eles já nos estão a preparar um futuro, mas não é futuro digno de seres livres, é um futuro de escravos (da dívida, em primeiro lugar, dos lóbis actuais, em segundo, da "nova elite", em terceiro). É isso que realmente queremos?

 

Já não há políticos como Wilberforce. E se os há, não são os escolhidos pelo sistema. O sistema defende-se. Logo que surge um Wilberforce, tentam anulá-lo, neutralizá-lo.

Teremos de ser mais inteligentes e criativos. Refiro-me à chamada sociedade civil. E não nos podemos ficar pelas Petições. Teremos de recorrer ao nosso engenho e arte.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:04

Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira

Terça-feira, 30.03.10

 

Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.

Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.

E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.

Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.

 

Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.

O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.

Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.

 

Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?

Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.

 

Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...

 

E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...

É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).

E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.

 

 

 

Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

Coisas simples: as memórias felizes

Sexta-feira, 12.03.10

 

Não é propriamente nostalgia, mas mais uma ligação a sensações, emoções e sentimentos que experimentei ao longo dos anos em determinados momentos felizes.

Geralmente é pela música, uma música determinada, que tenho acesso a esses momentos felizes. Mas também pode ser um dia de sol, como hoje, ou gestos simples como cuidar das plantas, ou cantar, ou dançar...

Retenho esses momentos felizes, essa claridade, essa respiração, para me acompanharem e inspirarem, uma vez que o que nos rodeia hoje em dia não é muito estimulante nem encorajador.

 

Ouvir falar da violência escolar sem castigo, de uma gestão escolar ausente... e do seu resultado dramático, um pré-adolescente que se atira ao rio e de um professor que se atira da ponte, porque chegaram ao limite do sofrimento suportável...

Ouvir um Presidente em entrevista, e acompanhá-lo penosamente no seu dia-a-dia mais que cinzento e impessoal, mais que ausente, talvez mesmo de um outro planeta...

Ouvir um ministro insultar os gestores locais, os que estão mais próximos das populações e lhes sentem as necessidades quotidianas...

Como disse Mota Pinto em discurso na AR: a ausência de verdadeiros estadistas nas rédeas do poder... Prisioneiro do seu calculismo político, o governo continua a colocar em segundo lugar o interesse nacional...

 

Sim, se não fosse a nossa incrível capacidade de nos distanciarmos da mediocridade que nos rodeia, da maior loucura e insensatez... e graças a estes neurónios, os nossos melhores aliados, que nos permitem deslocar a atenção para coisas bem mais merecedoras da nossa atenção e cuidados... sim, se não fossem osintervalos saudáveis onde se pode ir respirar para voltar à arena com outra disposição, outra energia, outro entusiasmo...

 

Podemos trazer para o nosso presente esses tempos felizes, não por desejarmos a eles voltar, mas simplesmente para nos lembrarmos dessas sensações, emoções e sentimentos, o melhor que somos.

Respirar livremente nessa claridade, nessa tonalidade, que é nossa e irrepetível, e não nos deixarmos contaminar pelo ódio que pressentimos à nossa volta, e o medo, que alimenta o ódio. E o mal, que se alimenta do medo e do ódio.

 

Haverá sempre loucos que tentam interferir na vida das outras pessoas, condicioná-las, utilizá-las, escravizá-las. E pessoas que se deixam deslumbrar por esses "falsos deuses" (Arno Gruen) que usurpam o poder. Este fenómeno será tema de um próximo post pegando neste autor que nunca esteve tão actual.

Sim, haverá sempre loucos a atropelar outros, porque se julgam superiores, de outro plano, acima das regras e dos limites, acima das éticas e dos equilíbrios. E haverá sempre conformistas a servir de capacho, a manter-lhes o cenário, a cobrir-lhes a retaguarda, a esconder-lhes as tropelias.

 

Retenho, pois, essa claridade e essa tonalidade, até sentir que, para lá de tudo, dessa ilusão maior, somos uma existência breve e fugaz...

Deixemos, ao menos, no nosso caminho, uma influência benigna. E que a nossa influência seja tão leve e imperceptivel que não seja sequer possível calculá-la ou avaliá-la. Essa é, para mim, a poesia mais elevada, a filosofia de vida perfeita.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:09








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